Globo 50 anos: A história da teledramaturgia global - Parte 2


As novelas das nove, que durante maior parte da história foram chamadas de novela das oito, são tradicionalmente a maior audiência da TV brasileira. Ainda que naturalmente haja fracassos ou fuga de telespectadores, raríssimas foram as ocasiões em que o horário se viu ameaçado - e menos ainda por uma ameaça contínua.

Com tramas mais pesadas, elaboradas e com abordagens mais adultas, as novelas das nove são as que mais mobilizam o telespectador brasileiro - tanto pela audiência efetiva, de quem está de fato assistindo, quanto no comportamento -. Roupas, acessórios ou bordões das novelas das nove são os que mais facilmente caem nas graças do público, sendo reproduzidos durante anos e anos - às vezes, décadas e até incorporando ao vocabulário do país.

Há certas ressalvas quanto à primeira novela das oito - como chamada inicialmente. “Pecado de Mulher”, por exemplo, foi ao ar às 20h, mas apenas para São Paulo. “Paixão de Outono” foi ao ar praticamente na mesma época, mas às 21h30. “O Ébrio”, por sua vez, foi exibida às 20h.

Independente da novela pioneira, nos anos 60 e 70 as novelas das oito tinham a autora Janete Clair como principal nome. Walter Avancini, Daniel Filho, Henrique Martins e Gonzaga Blota foram os principais diretores da época.

Janete era considerada genial pelas histórias propostas, pela audiência que rendia e principalmente pela habilidade em transformar tramas que inicialmente não tinham boa aceitação do público em sucessos. Textos como de “Véu de Noiva”, “Selva de Pedra”, “O Semideus”, “O Astro”, “Pecado Capital”, “Pai Herói” e “Irmãos Coragem” foram assinados por ela.


Corriam por fora autores como Lauro César Muniz, de “Escalada” e “Espelho Mágico”, e Gilberto Braga, que alternava seus trabalhos com outros horários mas que teve grande êxito com “Dancin’Days” e “Vale Tudo”.

Janete Clair faleceu em 1983 aos 58 anos vítima de um câncer de intestino. Na época, ela estava escrevendo “Eu Prometo”, novela das 22h que foi assumida por Glória Perez - ínterim o qual ela despontou como autora solo -. Janete deixou Dias Gomes, também autor de novelas, como “Roque Santeiro”, e falecido em 1999.


Nos anos 90, uma repaginada no time de autores da faixa das 21h começou a ser colocada em prática. Sem Janete Clair e levando em conta que Dias Gomes tinha uma rotina de trabalhos muito menos extensa que a da esposa, ganharam espaço Glória Perez - após uma passagem pela Manchete -, Aguinaldo Silva, Silvio de Abreu e Manoel Carlos. Benedito Ruy Barbosa, de volta à Globo após o fenômeno “Pantanal” na Manchete, também teve êxito com “Renascer” e “O Rei do Gado”. Outros sucessos da época podem ser representados por “Pedra sobre Pedra”, de Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, “Por Amor”, de Manoel Carlos e “Terra Nostra”, de Benedito Ruy Barbosa.

A Globo também teve vários sucessos na faixa das 21h nos anos 2000. “Laços de Família” e “Mulheres Apaixonadas”, de Manoel Carlos; “Porto dos Milagres” e “Senhora do Destino”, de Aguinaldo Silva; “O Clone”, de Glória Perez; e “Celebridade”, de Gilberto Braga, foram algumas das tramas que chegaram a parar o Brasil por diversas vezes e são facilmente lembradas até os dias de hoje.

“América”, lançada em 2005, foi uma novela marcada por turbulências mas marcou por ter sido uma das primeiras a ter abordado o relacionamento homossexual. Chegou a ser gravado um beijo gay entre os personagens de Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro, mas a cena jamais foi ao ar - o que frustrou parte dos telespectadores -. O beijo gay, de fato, só foi exibido quase dez anos depois em “Amor à Vida”, no começo de 2014.


Em 2007, a Globo avançou com “Duas Caras”, primeira novela exibida em alta definição da história da emissora. Testes e gravações já ocorriam há vários anos - até mesmo “América” teve cenas captadas em HD, mas não havia estrutura de exibição -. Ainda no final da década, João Emanuel Carneiro foi promovido da faixa das 19h para as 21h e escreveu “A Favorita”, que caiu nas graças do público. “Caminho das Índias”, de Glória Perez, levou o Emmy de melhor novela - último fato relevante para o horário naquela década.
No começo da década de 2010 - mais precisamente em 2011, com “Insensato Coração”, a Globo finalmente passa a trabalhar com o termo “novela das nove”. A exibição já não era mais às 20h30 ou 20h50 como anos atrás, mas sim às 21h ou 21h10.


Em 2012, a emissora tem o grande fenômeno “Avenida Brasil”, de autoria de João Emanuel Carneiro. A novela é a mais exportada da história do canal, tendo sido comprada por mais de 120 países. Mesmo tendo ido ao ar cinco folhetins, nenhum deles chegou perto de repetir o sucesso da história de Carminha (Adriana Esteves).

O beijo gay de “Amor à Vida”, conforme mencionado acima, foi outro fato marcante para a dramaturgia da Globo como um todo. Embora o beijo gay já tivesse sido exibido em emissoras menores, como MTV, e em “Amor e Revolução”, do SBT, era como se fosse a primeira vez para milhões de telespectadores. Mateus Solano e Thiago Fragoso protagonizaram a cena, que rapidamente ganhou as redes sociais - dividindo assim comentários favoráveis ou contrários. Repercussão similar, mas em menor escala, foi percebida em “Babilônia”, quando as personagens de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg protagonizaram um beijo gay logo no primeiro capítulo. A baixa audiência da novela, inclusive, ainda é creditada a tal ato, que teria criado repulsa por parte dos telespectadores mais conservadores.


A Globo também fez novelas na faixa das 22h e 23h - tendo voltado a esta última em 2011, com “O Astro”. O retorno, a princípio, era destinado a remakes: “Gabriela”, “Saramandaia” e “O Rebu” ganharam novas versões. No entanto, agora em 2015 irá ao ar a primeira produção inédita do horário: “Verdades Secretas”, de Walcyr Carrasco.

No passado, novelas como “O Bem-Amado” e as próprias “Gabriela”, “Saramandaia” e “O Rebu” foram exibidas nessa faixa das 22h. Destacam-se como autores deste período Glória Magadan, que emplacou cerca de sete novelas entre os anos 60 e 70, e Dias Gomes, autor de oito - mas nos anos 70.

Minisséries

A dramaturgia da Globo não é pautada apenas em novelas. Séries e minisséries também fazem parte da história da emissora e algumas delas são tão - ou até mais - lembradas que novelas.

As primeiras minisséries da Globo foram produzidas nos anos 80. Aguinaldo Silva, Doc Comparato e Euclydes Marinho foram os principais percursores deste segmento. As histórias oscilavam entre 4 e 30 capítulos. Com o passar do tempo, autores de novelas também passavam a escrever minisséries - como foi o caso de Gilberto Braga, que fez “Anos Dourados” em 1986.


“Grande Sertão: Veredas”, “O Pagador de Promessas” e “Avenida Paulista”, junto a “Anos Dourados”, foram algumas das principais produções da Globo nos anos 80 na área de minisséries. Já nos anos 90, os investimentos aumentaram - de 21 minisséries produzidas nos anos 80, o número pulou para 26 nos anos 90 -. “Anos Rebeldes”, “As Noivas de Copacabana”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Labirinto”, “O Auto da Compadecida” e “Chiquinha Gonzaga” foram algumas das histórias mais impactantes.

Nos anos 2000, a Globo ousou ainda mais em suas apostas. Maria Adelaide Amaral despontou como uma das principais autoras de minisséries e teve êxito com “A Muralha”, “Os Maias”, “Um Só Coração”, “JK” e um dos maiores fenômenos, “A Casa das Sete Mulheres”.

Apesar do sucesso de Maria Adelaide, Carlos Lombardi também acertou com “O Quinto dos Infernos” e Manoel Carlos com “Presença de Anita”.

No fim dos anos 2000, as minisséries já não tinham mais o mesmo apelo de antes. Tramas como “A Pedra do Reino” e “Queridos Amigos”, por exemplo, reduziram os índices de audiência do canal e permitiram que a Record avançasse - já que nesta época a emissora exibia novelas próprias no confronto com minisséries -. “Maysa - Quando Fala o Coração”, de Manoel Carlos, foi o último sucesso da década.

Nos anos 2010, o formato de minisséries foi praticamente extinto. Grandes produções de 50 capítulos - ou até mais - foram substituídas por várias tramas menores, de 4, 5 ou no máximo 10 episódios. Maria Adelaide Amaral, que escreveu pouco mais de 50 capítulos em “Um Só Coração” e outros em “A Casa das Sete Mulheres”, adaptou “Dalva e Herivelto” em apenas 4 - mesmo número de “Dercy de Verdade”, lançada em 2012.

O formato teve exemplos de sucesso, como “O Canto da Sereia”, de 2013 e “Amores Roubados”, de 2014. “Felizes Para Sempre”, exibida em 2015, não empolgou, mas conquistou grande repercussão por conta do teor erótico.


A dramaturgia da Globo já produziu mais de 80 séries ao longo destes 50 anos. “A Grande Família”, uma das primeiras, teve sua versão original lançada em 1972 e tendo voltado ao ar em 2001 - ficandodo em cartaz por 14 anos, um dos produtos mais longos da grade do canal.

Também foram séries importantes para a Globo “Carga Pesada” e “O Sítio do Pica Pau Amarelo”. Ambas foram lançadas nos anos 80 e ganharam novas versões nos anos 2000. No ramo de comédia, outro destaque foi “Armação Ilimitada”, liderada pelos atores Kadu Moliterno e André de Biase e que teve apoio forte de Daniel Filho para sair do papel em 1985.

Tarcísio Meira e Glória Menezes, alguns dos principais nomes da dramaturgia brasileira, também tiveram uma série própria: “Tarcísio e Glória”, que foi ao ar em 1988.

Nos anos 90, “Delegacia de Mulheres” e “Mulher” foram grandes apostas. O “Você Decide” foi outro sucesso, tanto de audiência como pelo fato de ter sido pautado na interatividade, permitindo que os telespectadores pudessem decidir o desfecho de histórias polêmicas através do voto por telefone. No ramo da comédia, o “Sai de Baixo” contou com 241 episódios e 7 temporadas - também sendo um dos mais longos da história da Globo -. Já para o público infanto-juvenil, a Globo produziu “Sandy e Junior” no fim dos anos 90 e início dos anos 2000.

As apostas em séries se intensificaram nos anos 90. “Os Normais”, “A Diarista”, “Sob Nova Direção” e “Toma Lá Dá Cá” foram algumas das principais referências da década neste formato. Além destas, mais 20 produções, dos mais variados gêneros, foram feitas, como “Minha Nada Mole Vida”, “Casos e Acasos”, “Guerra e Paz”, “Força Tarefa” e “Tudo Novo De Novo”.

A década de 2010, atendendo a uma demanda de mercado e consequentemente dos próprios telespectadores, a Globo produziu ainda mais séries - as quais não necessariamente iam ao ar no horário nobre. “Os Caras de Pau”, por exemplo, teve 115 episódios nas tardes de domingo.

Foram feitas apostas no sistema de parceria - onde a Globo compartilhava a produção com produtoras e outros terceirizados -. “As Cariocas” e “As Brasileiras”, ambas de direção de Daniel Filho, se enquadram neste quesito. A Lereby Produções, por exemplo, foi a co-produtora. A empresa pertence a Daniel Filho.

Uma das últimas séries finalizadas pela Globo foi “Dupla Identidade”, de Glória Perez. Foi a primeira vez que a autora se aventurou no ramo e, apesar de não ter sido considerada um grande sucesso, contou com várias críticas positivas.

Por João Gabriel Batista

Fonte: Natelinha










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